Terça-feira, 13 de Novembro de 2007

Zoo


Zoo

"Zoofilia (Zoo, 2006), do diretor Robinson Devor, é um claro caso em que a sinopse pode motivar uma ida aos cinemas pelos motivos errados. O documentário procura recriar os acontecimentos da noite de 2 de julho de 2005, quando um homem de Seattle foi deixado quase morto às portas de um hospital, com perfuração no cólon. Logo em seguida, os detetives descobriram, perto dali, uma fazenda vazia, onde um grupo secreto de zoófilos formado por homens vindos dos quatro cantos do planeta costumava manter relações sexuais com cavalos da raça garanhão árabe. Na fazenda, a polícia ainda descobriu centenas de fitas de vídeo com imagens registrando as experiências. Explorado pela imprensa de forma sensacionalista, o incidente chocou a sociedade.

O tema, apesar de bizarro, atrai todo o tipo de curioso. Para esses, a experiência pode não agradar. Zoofilia não investe no sensacionalismo barato de utilizar cenas de homens sendo sodomizados por cavalos vigorosos. Tirando duas cenas de sexo muito rápidas mostradas em uma distante TV, a abordagem é reflexiva. Devor utiliza atores personificando os envolvidos na tragédia: a vítima, os zoófilos e os policiais. No caso dos zoófilos foram usadas gravações com alguns dos envolvidos. Eles foram apelidados de Happy Horseman e H. A vítima de Mr. Hands.

Interessante que o cineasta não procura apontar culpados ou tratar o assunto como perversão de um bando de tarados que procura saciar seu apetite sexual com animais. Os zoófilos ganham uma voz ativa para explicar os motivos que os levam a esse tipo de relacionamento. Percebemos amor e não o simples sexo carnal e devasso. O contato intimo com os animais era terno e carinhoso. Chega a ser uma mistura de tristeza e emoção.

Esse grupo formado por homens de diversas nacionalidades descobriu sua afinidade por causa da internet. O documentário de Devor mostra que através da web homens que se sentiam deslocados no mundo, encontraram outros na mesma situação. Cenas de estradas desertas à noite funcionam como simbolismo para o estado de espírito dos zoófilos: homens em uma profunda e constante solidão.

Apesar dos cavalos serem o objeto de atração, outros animais também participavam dos encontros, como cabras, ovelhas e até cães. A cidade de Seattle era um porto seguro, pois o código penal do Estado de Washington não proíbia a zoofilia. Obviamente, depois do trágico incidente, a lei foi mudada.

O diretor desenvolve o tema usando granulações, 16 mm, preto e branco, entre outras técnicas com o intuito de provocar um debate sobre os limites impostos pela sociedade. Até onde vai a restrição do desejo humano. Se o cavalo consentia e participava, por que não? Vale dizer que os animais eram muito bem tratados e gostavam da companhia dos zoófilos. Ao mesmo tempo, seria essa prática uma afronta ao eqüino? Sendo um animal irracional, não estaria ele sendo abusado? A Associação de Proteção dos Animais também tem a oportunidade de participar do debate com as suas ponderações.

Visivelmente, Devor combina narrativa com documentário. A recriação de eventos misturados com cenas reais remete aos ótimos trabalhos realizados pelo cineasta Werner Herzog. A proposta estética de Devor utiliza seqüências sedutoras e oníricas, manipuladas para que o tema seja apresentado com um certo conforto para o espectador. Esse formato permite que o público não fique indignado. Esse jeito estilístico, em um primeiro momento, pode ser acusado de parcial. Mas como o assunto gera uma imparcialidade pelo público, talvez fosse a única maneira de Devor conseguir a atenção do espectador sem cair no ridículo ou no humor negro. Infelizmente o tabu social é maior que a discussão sobre a matéria.

No final, Devor mostra que a verdadeira vítima foi o cavalo envolvido na tragédia. E o algoz não foram os zoófilos, mas sim as autoridades. Com medo de que curiosos tentassem reviver a relação sexual com o garanhão, resolveram castrá-lo. Nunca um orgasmo resultou em tamanha injustiça." Não se deixe levar pela sinopse do filme



publicado por Ridwan às 00:09
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4 comentários:
De Hugo Jorge a 13 de Novembro de 2007 às 17:51
Parabéns pelo blog.
Gostei muito de ler o conteúdo e apreciar as fotos.
Partilho o gosto por Norberto Lobo.

Hugo Jorge
http://dr-hugo-jorge.blogspot.com/
De Ridwan a 13 de Novembro de 2007 às 18:35
:)

Aposto que o Mudar De Bina vai estar na lista dos melhores do ano de muita boa gente.
De MrAlan a 13 de Novembro de 2007 às 23:16
Este blog, merecia mais vida, mais umas cores.
De Ridwan a 15 de Novembro de 2007 às 01:22
Neste momento o blog está no período branco(preguiça),mas há esperança,os períodos azul e rosa estão próximos ;)

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